De sistema terceirizado a produto proprietário para controlar o dinheiro de mais de 1.200 lojas, com mais agilidade e mais segurança

Visão geral

O tesoureiro de uma loja Magalu cuida de todo o dinheiro físico que passa pelo caixa. Ele abre e fecha o caixa, faz dezenas de sangrias e depósitos bancários por dia, controla suprimentos e notas de débito. Em uma rede com 1.246 lojas e R$ 5,2 bilhões de vendas em lojas físicas no 2T26 , qualquer atrito nesses processos se multiplica todos os dias, e qualquer brecha de segurança também.

Em 2022, o contrato com o fornecedor do sistema de tesouraria estava perto do fim. A empresa decidiu construir um produto próprio para resolver três dores: custo alto, dependência de terceiros para entregar novas funcionalidades e pouco controle sobre o numerário.

Entrei no time durante essa troca. Desenvolvi discoverys essenciais, realizei entrevistas com usuários, desenhei os fluxos das principais funções do produto (sangria, depósito bancário, criação e administração de notas de débito, entre outras), prototipei em alta fidelidade evoluindo o design system e validei tudo com stakeholders. Hoje, o sistema está implantado com sucesso em todas as lojas. A partir de 2025, incorporei IA ao meu processo de discovery, design e handoff.

O desafio

Não bastava redesenhar telas de um sistema existente. Era preciso reconstruir a operação financeira de um grande varejo em um produto novo, para perfis muito diferentes: tesoureiros de loja e de escritório, times de SRC, conciliação, antifraude e contabilidade. Cada cargo tem acessos, responsabilidades e riscos próprios.

O desafio era criar uma experiência mais simples para quem opera, sem abrir brechas para erro humano ou fraude.

Processo

1. Aprender o processo com quem o executa
Antes de desenhar qualquer fluxo, eu fazia entrevistas online e presenciais com os profissionais e times responsáveis pelo processo que iria redesenhar. Pedia que me mostrassem, na prática, como trabalhavam hoje e quais eram os pontos mais relevantes, as dores, os riscos de fraude e os riscos de erro humano.

Essas conversas eram a minha porta de entrada em um domínio novo. Ao longo de toda a sprint, eu voltava a elas para tirar dúvidas e validar conceitos com quem conhecia a operação de perto. Nesse caminho, estive em contato constante com tesoureiros e com os times de contabilidade e antifraude.

2. Pesquisa específica para cada perfil
O sistema tem visões diferentes por cargo. Por isso, a pesquisa era refeita a cada novo fluxo, respeitando o contexto de cada usuário, sem generalizar.

3. Desenhar para a segurança, mesmo quando isso incomoda
Havia dados sensíveis que só os times de escritório ou os gerentes de loja podiam acessar, e as experiências precisavam ser desenhadas sem brechas.

Em um momento do projeto, descobrimos que um dado exibido no sistema podia ser usado por colaboradores mal-intencionados para reorganizar identificadores de gastos, fechar o balanço e encobrir uma saída indevida de valores. Decidimos restringir ainda mais o acesso a essa informação. A decisão gerou bastante reclamação dos usuários, mas foi a correta para proteger o negócio.

4. Prototipação, testes e negociação
Criei fluxos de usabilidade, propus conceitos, prototipei em alta fidelidade, evoluí o design system e testei com usuários reais. Cada entrega foi negociada com tecnologia, produto e negócio. Meu papel era ser a voz dos usuários nessas conversas, sem deixar que a conveniência se sobrepusesse à segurança.

Evolução do processo com IA (a partir de 2025)

Em 2025, passei a incorporar LLMs e agentes ao meu trabalho nas demandas de tesouraria. A ideia não era substituir o olhar do designer, e sim tirar o trabalho operacional do caminho: documentar, organizar, montar versões iniciais. Isso deixava mais tempo para o que exige julgamento, como entender o usuário, decidir e defender as escolhas.

EtapaFerramentaO que mudou
DiscoveryGravações + NotebookLMRegistros automáticos e sínteses (fluxos, mapas de empatia, oportunidades)
As-isAplicação própria no AntigravityFluxos e prints gerados a partir das gravações
DesignAgentes do Figma e Google StitchSugestões de layout a partir da biblioteca de componentes
ValidaçãoFigma MakeTestes de conceito e usabilidade com usuários e stakeholders
HandoffMCP do FigmaControle de versão e aderência aos tokens do design system

Resultados do lançamento

Para medir o impacto, fui até as lojas e cronometrei os processos reais, ao vivo, comparando o sistema anterior com a Nova Tesouraria. Os cliques incluem a digitação de senhas, credenciais e valores, para refletir o esforço real do usuário.

ProcessoAntesDepois
Fechamento de caixa49 cliques~23 cliques (−53%)
Suprimento16 cliques · ~1 min~6 cliques · ~30 s (−63% cliques, −50% tempo)
Abertura de caixa22 cliques · 1 min~15 cliques · ~30 s (−32% cliques, −50% tempo)
Depósito bancário10 cliques · 10 min~15 cliques · ~1 min (−90% tempo)
Notas de débito10 cliques · ~1 min~20 cliques · ~1 min
Sangria4 cliques4 cliques · ~10 s

Menos retrabalho no suprimento. No sistema anterior, o valor precisava ser enviado separadamente para os PDVs e a nova experiência reduziu esse fluxo de 16 para cerca de 6 cliques.

Quando mais cliques foi a decisão certa. Em depósito bancário e notas de débito, o número de cliques aumentou de propósito. Incluímos etapas de segurança que o sistema antigo não tinha, como a justificativa digitada. Mesmo assim, o depósito caiu de 10 minutos para cerca de 1, e as notas de débito, uma tarefa diária, mantiveram o tempo médio de 1 minuto, agora com mais rastreabilidade. A meta era reduzir o tempo sem abrir mão da segurança, e não apenas contar cliques.

Mais funções no mesmo lugar. A Nova Tesouraria trouxe para dentro do produto tarefas que dependiam de outros sistemas ou não existiam:

Impacto para o negócio. A empresa passou a ter autonomia sobre o roadmap, deixou de depender do prazo de um fornecedor externo, ganhou controle sobre o numerário e implantou o sistema em toda a rede de 1.246 lojas.

Aprendizados

Entender o trabalho vem antes de desenhar. Só consegui propor boas soluções depois de observar e ouvir quem lida todos os dias com o dinheiro da empresa. Em um domínio complexo, o repertório do designer se constrói nas conversas com os usuários.

Nem toda boa experiência é a mais rápida. Em um produto financeiro, tirar atrito do lugar errado cria risco. Aprendi a decidir onde manter o atrito e a explicar o porquê aos usuários.

Ser a voz do usuário não é dizer sempre sim a ele. É entender suas dores a fundo e, quando necessário, defender decisões impopulares com argumentos claros.

IA amplia o designer, mas não decide por ele. Automatizar o que é repetitivo me deu tempo para o que só o designer pode fazer: ouvir, interpretar e decidir. Aprendi também que o resultado depende da qualidade dos insumos, e por isso a biblioteca de componentes bem estruturada foi o que tornou os layouts gerados utilizáveis.